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Don't Panic no Indie Lisboa 2012 - 2º round

Palavras chave: the color wheel berlin telegram
Written by Paulo Lourenço / 09 May 2012 / 1 Comentário
Don't Panic no Indie Lisboa 2012 - 2º round | Enviado especial por Paulo Lourenço | Don't Panic online Revista
The Color Wheel – Alex Ross Perry (EUA, 2011)
 

Filme de baixo orçamento, escrito e protagonizado por Alex Ross Perry e Carlen Altman, The Color Wheel está nos antípodas daquilo a que o cinema main stream americano nos habituou.

Um misto de road movie, comédia romântica e visita ao passado, este filme, rodado em 16mm, num preto e branco granuloso e com câmara à mão (opções que Perry justificou explicando que a Kodak lhe oferecera 80 latas de película de 16mm a preto e branco e que o operador de câmara e seu amigo, Sean Price Williams, vem da área documental), conta a história de Colin (Alex Ross Perry) que é persuadido pela sua irmã JR (Carlen Altman) a ir com ela buscar os seus pertences a casa do seu ex-namorado e professor da faculdade. No decurso da viagem, vão sendo revelados os contornos da relação entre Colin e JR, os seus caracteres peculiares, neuroses e manias (no sentido clínico).
 
Nesse regresso à sua terra natal, reencontram ainda antigos colegas de escola numa festa bizarra, em casa de uma ex-paixão de Colin, festa essa que serve não só para acentuar o corte com esse mesmo passado, como também para fazer um balanço das suas vidas no presente, aquilo que são em contraponto com aquilo que desejariam ser. No regresso a casa, dá-se uma surpreendente reviravolta entre os irmãos, deixando ao critério individual do espectador qualquer interpretação de significado do último plano deste filme.

Berlin Telegram – Leila Albayaty (Bélgica/Alemanha, 2012)
 

1ª longa-metragem da cantora e compositora francesa de origem iraquiana Leila Albayaty, Berlin Telegram revela uma maturidade impressionante, em especial se tivermos em conta que Albayaty contava apenas com uma curta- metragem no seu curriculum até então. Talvez a forte vertente autobiográfica deste filme (embora isto seja apenas uma especulação, pois Leila Albayaty não quis abordar este aspecto quando inquirida por um elemento do público, na breve conversa a que se dispôs, na sala 1 do cinema Londres, dizendo que estava ali para falar do filme e não da sua vida pessoal) contribua para  este facto. Tal como ela própria, outras pessoas aparecem no filme com as mesmas relações e nomes que têm na vida real, como é o caso dos seus pais, da sua irmã Hana, de Tarek Atoui, Eric Menard, Alain Rylant ou Cristoforo Spoto.

Berlin Telegram conta-nos a história do fim súbito e aparentemente inexplicável de uma relação apaixonada, a de Leila, cantora numa banda alternativa em Bruxelas e Antoine, o seu namorado, o qual vemos apenas através das memórias sofridas de Leila ou então ao longe, através de uma vitrine. Decidida a retomar as rédeas da sua vida e a reparar o seu coração partido, Leila muda-se para Berlin, onde tudo é novo, um sítio neutro, sem quaisquer memórias ou associações ao seu passado, o que torna o recomeço mais fácil. E assim acompanhamos um ano da sua vida, durante o qual conhece pessoas, cria novas amizades, reencontra amizades antigas, cria uma nova banda e a pouco e pouco, volta a sentir a força e a alegria de viver. Durante esse ano acompanhamos ainda algumas das suas viagens, cada uma com um significado; Lisboa, por exemplo, é a memória dolorosa dos tempos felizes com o seu ex-amante, o Cairo a referencia das suas origens.

Este é um filme de digestão lenta e que não se esgota no primeiro olhar. A mim, por exemplo, de imediato não me convenceu. Achei que era o tipo de filme de que essencialmente as mulheres iriam gostar. Mas com o passar dos dias fui percebendo que persistia em assombrar-me a memória e que acabou por ter um efeito inesperado em mim. Talvez seja um daqueles casos
em que, como disse o grande poeta e cito: Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

O Som ao Redor – Kleber Mendonça Filho (Brasil, 2012)
 

Eis toda a frescura do cinema brasileiro, em mais uma 1ª longa-metragem, desta feita da autoria de Kleber Mendonça Filho. Com uma realização descomplexada e transversal em termos de estilo, o filme começa com planos de zoom, típicos de muitos westerns (e abundantes em todo o cinema dos anos 70) passa por planos típicos de thriller policial e, a minha parte favorita, tem uma componente onírica que lhe dá um toque muito especial. Mas esta mistura de estilos tem sobriedade e coerência, funcionando portanto a favor do filme, do seu ritmo e da construção hábil da narrativa. Outro aspecto a ter em consideração é o soberbo trabalho de som que, segundo o próprio Kleber, terá sido revisto e retrabalhado umas 10 vezes na pós-produção deste filme. E isso percebe-se. Apropriando-se dos sons do quotidiano, cria quase um segundo filme, desta feita sonoro, que ora reforça as imagens, ora lhes atribui um segundo significado, substituindo por vezes a presença da música.

Ao contrário daquilo que habitualmente vemos como pano de fundo nos filmes brasileiros (São Paulo e o Rio de Janeiro, para ser mais exacto) O Som ao Redor é passado no Recife, no estado de Pernambuco. Inicialmente somos convidados a entrar no quotidiano de algumas personagens, dando a ideia de que este filme será acima de tudo, um retrato social daquela cidade,
quase ao estilo de documentário. Mas gradualmente, a trama narrativa começa a adensar-se e aquilo que parecia apenas uma manta de retalhos da vida do dia-a-dia, vai ganhando corpo e forma, até atingir a densidade de um western citadino, onde a antecipação e a espera estão trabalhados de forma muito hábil. Há qualquer coisa de Sergio Leone neste filme, que também nos fala de amor, medo, segregação social, problemas entre vizinhos, um clã, o passado e o futuro de uma região e o desejo de vingança. Definitivamente a não perder.
 
 
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Comentário
  • guest-editetaveira
    guest-editetaveira / Adicionado em: Wed 18 / Jul / 2012, 14:50
     
    Vou tentar ver os três filmes. O do realizador Kleber deve ser excecional. Obrigada pelas críticas e sugestões Paulo Lourenço. Como é que eu posso partilhar estas tuas críticas e sugestões no Facebook?
 
 
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