Guitarra Portuguesa - Entrevista Especial Don't Panic
Written by Don't Panic / 08 Feb 2012 / 0 Comentários
O Fado está na moda, é um facto. Aplaude-se quem o canta, louvam-se os que fazem maravilhas com a guitarra portuguesa, mas, esquece-se, variadas vezes, de quem as constrói. Fomos ter com o mestre Gilberto Grácio - descendente de uma família de autodidactas no fabrico daquele instrumento - para que nos contasse um pouco da sua já longa história.
É na Outurela, em Oeiras, que se situa o atelier de Construção de Instrumentos Musicais de Corda. Aqui, Gilberto Grácio, mais conhecido por mestre, dedica-se a construir, recuperar e salvaguardar a guitarra portuguesa. Com ele, estão mais dois alunos. Um deles, António Duarte aka Tony Klean (Batida/One Sun Tribe), vem de universos musicais distantes. Hip-hop, reggae e kuduro.
É na Outurela, em Oeiras, que se situa o atelier de Construção de Instrumentos Musicais de Corda. Aqui, Gilberto Grácio, mais conhecido por mestre, dedica-se a construir, recuperar e salvaguardar a guitarra portuguesa. Com ele, estão mais dois alunos. Um deles, António Duarte aka Tony Klean (Batida/One Sun Tribe), vem de universos musicais distantes. Hip-hop, reggae e kuduro.
Distantes, mas não muito, segundo Klean. “A música faz a ligação entre os vários estilos, é tudo uma família. O fado também já teve o seu momento de rebeldia, quando era, por vezes, proibido pela ditadura”, refere. Após acender um cigarro, António regressa ao passado e explica como chegou ao ateliê do mestre Grácio. “Nunca trabalhei com ferramentas…na música estive sempre ligado à percussão e não desenvolvi o apetite pela guitarra. Ganhei um gosto muito grande por serrar. Apaixonei-me pela construção de guitarras portuguesas. Tenho um enorme respeito por este instrumento que, ao mesmo tempo, significa muito para o país”, explica.
Gilberto Grácio, por seu turno, cedo aprendeu a conviver com a guitarra portuguesa. “O meu avô trabalhava em maçonaria fina, na vila de Cascais. Nessa altura, quiseram fazer uma tuna, com bandolins, guitarras e essas coisas todas. Ele avançou imediatamente na construção dos instrumentos e começou aí uma aventura que ainda perdura”, recorda.
O percurso de Grácio começou em finais dos anos 40. Segundo o mestre, foi no Cacém, cidade dos arredores de Lisboa, que começou a dar os primeiros toques na construção de instrumentos musicais. “Acabei o ensino primário e fui confrontado pelo meu pai relativamente ao meu futuro: continuar os estudos ou aprender as técnicas de fabrico de guitarras? Escolhi esta última e, hoje, ainda aqui ando”, afirma.
E é por ainda estar ligado à arte de construção de guitarras portuguesas que o mestre Grácio conheceu António Duarte aka Tony Klean, músico semi-profissional que há dez anos vivia uma situação de desemprego. “Estou ligado à música. Não sou profissional, mas posso dizer que sou semi-profissional. Há dez anos estava desempregado e inscrevi-me num curso de instrumentos musicais. O programa tinha um módulo de construção de violas e guitarras portuguesas. Foi aí que conheci o mestre Grácio”, lembra, acrescentando que antes de começar o curso, procurou saber quem seria o seu professor. “Investiguei um pouco do seu percurso antes de começar as lições. Era importante saber o passado do mestre”, conta.
A guitarra de Coimbra
Outro dos grandes cartões-de-visita da família de Gilberto Grácio é a construção da guitarra portuguesa de Coimbra. De acordo com o mestre, este instrumento começou a ser fabricado em finais dos anos 50. “Já na fase final da década de 50, o meu pai começou a fabricar uma guitarra para ser vendida no Olímpio Medina, uma casa em Coimbra. Os artistas faziam algumas experiências com aquele instrumento. Um desses artistas, o Artur Paredes, ficou pasmado com a sua sonoridade. Encomendou, de imediato, três ao meu pai!”.
“É preciso tocar com o coração”
António Duarte aka Tony Klean não tem nos seus planos aprender a tocar guitarra portuguesa. Diz que a sua vocação é a percussão e, no máximo, irá tentar uns acordes na viola. “Saber tocar bem um instrumento dura toda uma vida e como a minha paixão é a percussão não terei tempo de me agarrar a um objecto tão valioso como a guitarra portuguesa. Não é fácil. É preciso muita coragem”, adverte. Na mesma linha pensamento, Gilberto Grácio lembra que tocar bem não é tão simples quanto se pensa. “Há gente com qualidade a tocar, mas, ainda assim, há aqueles que se julgam mais do que realmente são. Hoje, os guitarristas começam de cima. Depois, com o tempo, vão por aí a baixo. Não têm qualidade. Antigamente, os guitarristas tocavam com o coração, com a alma. Ouvir discos do Jaime Santos, Carvalhinho, José Nunes… nota-se algo de diferente. O Artur Paredes e o Carlos Paredes ensaiavam, diariamente, cinco horas!”.
Confrontado com o recente interesse pelo Fado e tudo o que o rodeia, Grácio diz que a curiosidade sempre existiu, mesmo antes deste género musical ter sido distinguido com o título de Património Imaterial da Humanidade. “Sempre houve um grande interesse pelo Fado e pela guitarra portuguesa. Em Coimbra, por exemplo, devido aos estudantes, festas e serenatas, a curiosidade é uma constante. Mas, de facto, reparo nesse fenómeno de há dez anos para cá com mais insistência”.
As encomendas e…Jimmy Page
Confrontado com o recente interesse pelo Fado e tudo o que o rodeia, Grácio diz que a curiosidade sempre existiu, mesmo antes deste género musical ter sido distinguido com o título de Património Imaterial da Humanidade. “Sempre houve um grande interesse pelo Fado e pela guitarra portuguesa. Em Coimbra, por exemplo, devido aos estudantes, festas e serenatas, a curiosidade é uma constante. Mas, de facto, reparo nesse fenómeno de há dez anos para cá com mais insistência”.
As encomendas e…Jimmy Page
As caractersticas ímpares da guitarra portuguesa fazem com que as solicitações apareçam dos quatro cantos do mundo. Índia, Japão ou China são países de onde surgem encomendas. Alguns são portugueses. Outros, os estrangeiros, ouviram a sonoridade e quiseram ter um exemplar. “Há portugueses que levam as guitarras para
esses países. As pessoas de lá ouvem e apaixonam-se! É normal que queiram ter uma”.
Sir Jimmy Page, guitarrista dos Led Zeppelin, foi um dos clientes mais ilustres do mestre Gilberto Grácio. De visita a Lisboa, Page quis ficar com um exemplar da guitarra feita em Portugal. “Vendi-lhe uma guitarra. Foi à minha oficina e ficou extremamente satisfeito. Chegou até mim através do Valentim de Carvalho.
Estávamos em 1984. O Valentim telefonou-me, perguntou se tinha alguma guitarra e foi lá com o Page”, conclui, entre risos.
A terminar, o grito Don´t Panic de António Duarte aka Tony Klean: “espero que a música contribua para a paz no mundo”.
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