The Thing (1982)
Written by Paulo Lourenço / 29 Apr 2012 / 0 Comentários
O que há de comum entre um canivete suíço, um isqueiro Zippo e uma caneta Bic? Exactamente o mesmo que caracteriza o The Thing (Veio do Outro Mundo) de John Carpenter, são coisas que nunca passam de moda.
Por norma considero que os remakes de filmes costumam ser piores do que as versões originais, meras actualizações sem alma de filmes que se receia estarem demasiado envelhecidos para as novas gerações de espectadores.
Mas neste caso, a versão de 1982 é para mim “o” The Thing ou seja, aquele que aconselharia sem qualquer hesitação a quem me dissesse estar disposto a ver apenas um deles. A palavra chave deste filme é carisma. Carisma esse que resulta na ou da sua intemporalidade (o espectador que decida). O facto é que este aspecto é de tal forma marcante, que na terceira tentativa de trazer esta história para o grande ecrã (a recente versão de 2011) o tempo narrativo e todo o look do filme são exactamente os mesmos desta versão de 1982, o que considero uma opção salutar, que demonstra uma sensibilidade e respeito muito raros de encontrar no cinema dos nossos dias.
Este filme beneficia ainda de uma série de aspectos que, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, faziam do cinema americano o mais pujante do mundo. A começar pela força de um protagonista com cariz de herói, “duro” e simultaneamente cool, como é o caso de Kurt Russel no papel do piloto R. J. MacReady, coisa que se tem vindo a perder em virtude desta crescente infantilização quer do cinema quer das suas personagens.
Depois havia a questão dos efeitos especiais que, sem o auxilio de computadores, dependiam inteiramente do génio e do trabalho de uma série de pessoas, elevados ao estatuto de artistas quando a coisa corria bem. Neste caso, esse departamento mágico estava a cargo de Rob Bottin que, com apenas 22 anos, tinha uma equipa de mais de 40 pessoas a trabalhar para si, chegando ao ponto de ser obrigado a retirar-se do filme devido a exaustão, cedendo assim o seu lugar a Stan Winston. Era talvez este heroísmo, este sentido de missão e de esforço que davam ao cinema a sua dimensão mágica e profunda que hoje pareço não conseguir encontrar. Nas cenas de interiores, filmadas em Los Angeles, a forma encontrada para garantir o realismo do frio polar, foi arrefecer artificialmente o interior do estúdio para cerca de 4 ºC, quando a temperatura no exterior rondava os 38 ºC. Hoje em dia, usa-se um efeito gráfico em computador, que simula o vapor de água a sair da boca dos actores, fazendo parecer que está muito frio... Não me convence!
Lamentavelmente, The Thing não teve o melhor começo de vida. A sua estreia nas salas aconteceu poucas semanas após a de um outro filme, curiosamente também acerca de um alien mas este bem mais simpático e que reuniu um caloroso acolhimento por parte do público, o famoso E. T., de Steven Spielberg.
O facto é que com o passar dos anos, talvez devido à tal intemporalidade (e ao eventual facto de estar muito à frente da sua época) a justiça tem sido feita pois continua, de geração em geração, a haver quem admire e reconheça o verdadeiro valor deste filme e, mais importante que isso, usufrua do gozo que dá vê-los e perdermo-nos neles.
Só mais uma referencia, que me parece igualmente importante. The Thing é o primeiro filme de John Carpenter cuja banda sonora não é da sua autoria. Para o cumprimento dessa tarefa foi chamado Ennio Morricone, que cumpriu mais uma vez e com distinção a maravilhosa e mágica tarefa de dar uma alma que encaixa na perfeição ao corpo do filme.
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