Entrevista Especial
Palavras chave:
victor candeias
voyeur
multifilme
inovador
filme multiversão
realizador
artistas portugueses
Written by Don't Panic / 22 Feb 2012 / 0 Comentários
“A ideia de fazer um filme multiversão foi inspirada numa constatação aparentemente trivial: Sempre que me interesso por ver um filme começo por ler um resumo, ver o cartaz ou o trailer. Aquilo que a generalidade das pessoas também faz. E esse primeiro vislumbre fragmentário de imagens, sons e segmentos da história tem como efeito deflagrar na imaginação todo um mundo de possibilidades do que o filme será.
Nesse momento, cada um de nós pode antecipar a sua construção mental de um possível filme, e é como se tudo estivesse em aberto, como se o filme anunciado ainda não existisse realmente.” Declarações de Victor Candeias, autor do filme Voyeur / projecto Multifilme e professor de Cinema na Universidade Lusófona, para introduzir o conceito que desenvolveu.
Nesse momento, cada um de nós pode antecipar a sua construção mental de um possível filme, e é como se tudo estivesse em aberto, como se o filme anunciado ainda não existisse realmente.” Declarações de Victor Candeias, autor do filme Voyeur / projecto Multifilme e professor de Cinema na Universidade Lusófona, para introduzir o conceito que desenvolveu.
Um diálogo acompanhado de uma chávena de café, e que versou sobre o seu mais recente trabalho cinematográfico, ainda que temas como o estado da indústria em Portugal, e o mercado de trabalho na área audiovisual também tenham feito parte da ementa. Mas, primeiro, o Voyeur de final incerto. “E se um espectador nunca conseguisse ver uma versão final? E se ao rever o filme houvesse elementos que mudassem, alterando o próprio sentido do que tinha visto da primeira vez?” Estas interrogações estiveram na base da criação do projecto Multifilme, segundo Victor Candeias, que quis alterar o rumo habitual do processo, já que “o prazo de validade de um filme tende a terminar no momento em que acaba de ser visto pelos seus espectadores, ao esgotar-se o efeito de surpresa”.
Quanto ao processo criativo de Voyeur, Candeias preferiu optar pela narrativa clássica “para que os espectadores pudessem seguir uma história com princípio, meio e fim, encontrando nexos entre os elementos narrativos que vão surgindo com o desenrolar da acção. Utilizei seis enredos possíveis em torno de uma personagem central, com a qual podem interagir alternativamente 6 personagens secundários”.
Outro aspecto que exigiu especial atenção teve que ver com o tipo de história. “Uma curta-metragem produzida para exibir na Internet requer preferencialmente uma abordagem adaptada às condicionantes da plataforma”, avisa. “Por isso não deveria ser uma história demasiado complexa e que precisasse de tempo para se desenvolver, pois na Internet, em geral as pessoas não dedicam mais do que apenas alguns minutos a ver conteúdos. Chantagem, cobiça, traição, ciúme, roubo e fuga foram os temas escolhidos para os enredos alternativos, por serem de imediato
reconhecimento pelo espectador”, afirma o professor universitário.
Quanto aos objectivos preconizados aquando da produção do filme, Victor Candeias é claro: proporcionar experiências em detrimento de transmitir mensagens. “Quis proporcionar uma experiência inédita às pessoas que visionassem o filme. Isso interessa-me muito mais do que a mensagem, que em regra tem uma preocupação formativa, ideológica até, o que transcende o meu principal interesse pelo médium cinema.”
Ainda no projecto Multifilme, o realizador revela que pretende fazer mais alguns trabalhos nesta área, tendo já o seguinte em fase adiantada. “Tenciono fazer seis filmes desta natureza. Já escrevi o segundo, mas ainda não sei se o irei produzir em 2012, dependerá da possibilidade de financiamento. Mas não irão ser histórias diversas para a mesma abordagem que utilizei em Voyeur. A ideia é precisamente utilizar os princípios do conceito MultiFilme para aplicações muito diferentes na forma,no processo narrativo, e sobretudo na experiência para o espectador”.
O cinema em Portugal
Discutido o tema Voyeur, segue-se o debate sobre alguns problemas recorrentes do cinema português. Para o docente, uma das principais lacunas passa pelo número reduzido de espectadores de filmes nacionais. “Não temos massa crítica de espectadores que possa sustentar uma indústria. E o número de pessoas nas salas de cinema também não está em crescimento. Mas isso não significa necessariamente que os filmes portugueses não tenham futuro. Se queremos fomentar uma indústria, no sentido de possibilitar regularidade de trabalho a criadores e técnicos, acho que a solução tem de passar por promover formas de distribuição mais abrangentes que possam amortizar uma parte significativa dos custos de produção, diminuindo assim a dependência do actual sistema de subsídios que se tem revelado insuficiente perante as expectativas desses agentes. Isso permitiria produzir mais e com maior diversidade de propostas. Por outro lado, parece-me fundamental mitigar o aparente divórcio entre o público e os filmes falados na sua língua”, refere. De acordo com Victor Candeias, o que ocorre em Portugal é um fenómeno raro nas cinematografias europeias. “Somos dos raros países onde a população pouco se interessa pelo seu próprio cinema. E esse estado de coisas, que em certa medida até tem sido cultivado, creio que a prazo poderá liquidar a sustentação de uma pequena cinematografia como a nossa. Trata-se sobretudo, na minha opinião, de uma questão política, já que tem faltado capacidade de decisão conforme a uma visão estratégica de longo prazo para o sector.”
Pegando no tema “política”, o professor de cinema aproveitou para comentar a recente despromoção da Cultura na hierarquia do actual governo de Passos Coelho. “Tínhamos um Ministério, agora temos uma Secretaria de Estado.
Administrativamente, até pode não ser muito relevante, mas politicamente dá um sinal inequívoco de menoridade”, reprova, acrescentando que o argumento orçamental não é plausível. “Em termos de poupança não se compreende. Poupa-se em meia dúzia de pessoas. É uma estrutura que em vez de começar no número um passa a começar no número dois. Mas um secretário de estado não tem o mesmo poder de decisão política, e isso faz a diferença”. Quanto à imagem que esta situação transmite à sociedade, Candeias é claro: “parece que o investimento na cultura é uma extravagância de tempos de abundância.
E de que pode prescindir-se em tempos de escassez. Este tipo de decisões dão azo a interpretações do género”, critica. “O problema é que o que parece apenas circunstancial contribui para uma penalização reiterada historicamente e que mantém atrasada a consolidação da nossa indústria cultural. Porque esse desinvestimento nãoé uma questão recente”, recorda.
Administrativamente, até pode não ser muito relevante, mas politicamente dá um sinal inequívoco de menoridade”, reprova, acrescentando que o argumento orçamental não é plausível. “Em termos de poupança não se compreende. Poupa-se em meia dúzia de pessoas. É uma estrutura que em vez de começar no número um passa a começar no número dois. Mas um secretário de estado não tem o mesmo poder de decisão política, e isso faz a diferença”. Quanto à imagem que esta situação transmite à sociedade, Candeias é claro: “parece que o investimento na cultura é uma extravagância de tempos de abundância.
E de que pode prescindir-se em tempos de escassez. Este tipo de decisões dão azo a interpretações do género”, critica. “O problema é que o que parece apenas circunstancial contribui para uma penalização reiterada historicamente e que mantém atrasada a consolidação da nossa indústria cultural. Porque esse desinvestimento nãoé uma questão recente”, recorda.
A finalizar, Victor Candeias declara o que, em sua opinião, poderá ser o caminho do cinema em Portugal. “Maior diversidade de propostas e mais produção de conteúdos.
Aqueles que querem fazer cinema, e que acreditam na validade das suas ideias não devem deixar-se condicionar pela escassez de oportunidades no momento presente.
É preciso procurar alternativas de financiamento, conceber projectos adaptados às possibilidades, explorar as vantagens da produção digital e da distribuição na internet, por exemplo. Acredito que há sempre oportunidades, mas têm de se encontrarcom imaginação. O importante é demonstrar vontade de fazer e capacidade de concretizar, ainda que com menos meios”, diz, avançando com o exemplo da indústria cinematográfica argentina. “A Argentina esteve em falência técnica há uns anos. Mas, paralelamente ao processo de bancarrota do país, os agentes culturais procuraram
continuar a trabalhar, porventura encontrando nas dificuldades a sua força criativa.
Houve muitas pessoas que quiseram fazer cinema com o pouco que tinham. Hoje, o resultado está à vista e a cinematografia argentina alcançou uma diversidade sem precedentes e amplo reconhecimento no mapa do cinema internacional”.
Numa entrevista recente, Francis Ford Coppola dizia: “estou a aprender com a minha filha [Sofia Coppola] a fazer filmes low-cost. É esse o caminho”. Se o é para o realizador de “O Padrinho”…
Nota: para visionar o filme realizado por Victor Candeias, vá a www.multifilme.com. O filme conta com as interpretações de Paula Neves, André Gago, Adriano Carvalho, Carla Salgueiro, Francisco Queiróz e Jorge Silva.
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