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Lisboa sem S.A.L. não tinha o mesmo sabor!

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Written by Paulo Lourenço / 12 Jun 2012 / 0 Comentários
Lisboa sem S.A.L. não tinha o mesmo sabor! | Por Paulo Lourenço! | Don't Panic online Revista
Na varanda do São Jorge, sentado de costas para a Avenida, a minha sensação era a de que se me virasse de repente, teria atrás de mim uma praia imensa, cujo mar revolto estaria repleto de surfistas a rasgar as ondas com as suas pranchas.

Ao meu redor, toda aquela gente bronzeada, com um ar descontraído e roupas coloridas, cujas conversas eram dominadas por ondas, pranchas, swell e tubos, deixava no ar um cheiro imaginário a maresia e a wax. Jack McCoy, com a sua pinta indiscutível de americano do Havai, passeava-se entre os demais, apresentando-se e falando acerca de surf e do seu filme,
que iria ser projectado nessa noite.

Assim foram os momentos que antecederam a grande festa de abertura desta 1ª edição do Surf At Lisbon ou S.A.L., um festival de cinema inteiramente dedicado ao surf que, definitivamente, veio para ficar.

No programa, bastante recheado ao longo dos 4 dias em que se realizou o festival, para além dos filmes de curta e longa-metragem (alguns com a presença dos realizadores), constavam ainda palestras, música ao vivo (destaque para as bandas Capitães da Areia e Capitão Fausto), DJ’s, prémios surpresa para o público e um ambiente que teve, no mínimo, aquele encanto das coisas recém-nascidas, puras e sem mácula, para as quais olhamos e desejamos que cresçam fortes e saudáveis.

Aqui ficam os meus votos de uma vida longa e próspera para o S.A.L. e os meus sinceros parabéns ao Augusto Baião, Ricardo Gonçalves e Luís Nascimento, os heróis por detrás desta iniciativa, que decidiram surfar esta onda de adversidade, conquistando o sucesso da vitória.

Blue Sway (5’) – Jack McCoy
 

Alguém sabe quem é The Fireman? Na plateia do São Jorge, também o público presente foi apanhado de surpresa quando Jack McCoy, ao introduzir a sua curta-metragem intitulada Blue Sway, fez a mesma pergunta, explicando em seguida que se tratava de Sir Paul McCartney (para ser um pouco mais exacto, The Fireman é o nome com que McCartney batizou o seu projecto de música electrónica). Parece que o Beatle, segundo McCoy, ficou altamente impressionado quando viu as sequências subaquáticas que este havia filmado para o filme A Deeper Shade of Blue e lhe pediu uma montagem das mesmas para ilustrar o tema Blue Sway (faixa que se pode encontrar na reedição do álbum intitulado McCartney II). Blue Sway é portanto um videoclip, mais do que propriamente uma curta-metragem. Mas o casamento da música do ex-Beatle com os planos subaquáticos de McCoy, resulta numa harmoniosa e belíssima composição sonora e visual.

A Deeper Shade of Blue (91’) – Jack McCoy (Austrália, 2011)
(Premiado com: Melhor Longa-Metragem do S.A.L.)

 

“Aloha!” Foi assim que Jack McCoy se dirigiu ao público presente ao pegar no microfone pela primeira vez. Embora pareça um cliché havaiano, McCoy retirou de imediato à expressão o sentido “turístico-postaloide” que estamos habituados a dar-lhe e explicou que, mais do que um cumprimento caloroso, Aloha se trata de um conceito poderoso de cariz espiritual, no qual reside a essência do surf. “Mas no filme vão perceber melhor aquilo que quero dizer” garantiu. E a sua promessa fez-se cumprir. Aloha é o espírito do surf, do Havai, da natureza e do universo.

Os únicos detalhes técnicos que referiu, foram os 5 anos que o filme demorou a fazer e o uso de um equipamento especial para filmagem subaquática, desenvolvido pelo próprio, que pesava cerca de 70 Kg, e cujos resultados são absolutamente magníficos. No fim do seu discurso, sempre envolto numa aura de fascínio e cujo registo oscilou entre o cool e o profundo, fez um apelo à plateia dizendo que isto se tratava de um filme de surf e, dado que todos os presentes ali eram surfistas (quase todos, diria eu) por favor se exprimissem espontaneamente e não retraíssem as emoções. E foi exactamente isso que aconteceu.

O resultado foi uma sessão de cinema com carácter de culto. Uma tribo em êxtase, gritava, assobiava, aplaudia e uivava cada vez que um dos seus heróis fazia um tubo impossível, conquistava uma onda de 9 metros, ou surgia do meio da espuma ainda de pé na sua prancha, quando há muito parecia vencido pela onda rebelde que agora dominava. O culto da partilha, do grande ecrã, de estar no mesmo espaço com centenas de outras pessoas que sabem e sentem exactamente o que aquilo é, que conhecem o sabor daquela adrenalina, daquela paixão, desse modo de vida partilhado, vendo os melhores dos melhores, a elite, aqueles que todos sonham ou sonharam um dia vir a ser. Esta espécie de “cinema interactivo” tem um poder que ainda ninguém explorou devidamente e a que raras vezes se assiste. Mas é uma experiência capaz de fazer inveja a qualquer Igreja Metodista do Louisiana liderada por um pregador inspirado!

Mais do que um filme sobre surf, A Deeper Shade of Blue aborda todos os aspectos fundamentais do surf. Desde a sua origem, dominada pela espiritualidade do povo indígena do Havai, até à sua massificação e ao fenómeno do “crowd”. Da evolução das pranchas, do tempo em que eram talhadas a partir de uma árvore, à qual se pedia a bênção para que o seu
espírito se mantivesse vivo no pedaço de madeira que iria deslizar pelas ondas, à era dos petroquímicos e da produção em massa, ao retorno às pranchas em madeira. Da heroína havaiana, princesa Kaiulani que desafiou os colonizadores imperialistas, ao usar o surf como gesto simbólico da memória das suas tradições e da liberdade do seu povo, aos homens
que, um a um, introduziram novas técnicas e foram ao longo das décadas revolucionando a forma de surfar.

A Deeper Shade of Blue compila a história do surf, de forma eficaz e emocionante, sem nunca perder o ritmo e a adrenalina, tornando possível compreender de onde vem, onde está e para onde possivelmente caminha esta actividade extraordinária que, para McCoy, mais do que um desporto, é a forma mais bela de união entre o homem e a natureza.

É portanto mais do que um filme. É uma enciclopédia fílmica essencial para todos aqueles que se interessam por surf, dos meros curiosos aos praticantes inveterados. Esta é sem dúvida uma obra que honra, e eleva o surf a um patamar digno da sua grandiosidade.
 
 
 
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