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You Can't Win, Charlie Brown

Palavras chave: you can't win charlie brown ycwcb south by southwest sxsw 2012 março
Written by Don't Panic / 01 Feb 2012 / 0 Comentários
You Can't Win, Charlie Brown | Já não soa tudo a Nirvana ou a Pearl Jam! | Don't Panic online Revista
A equipa da Don't Panic encontrou os You Can´t Win, Charlie Brown no Jardim da Estrela, em Lisboa. Abordou os três elementos que passeavam pela capital e convidou-os para uma conversa informal. Afonso Cabral, Salvador Menezes e João Gil foram, à vez e intercalados, respondendo às várias questões. A presença no festival South by Southwest foi o ponto de partida de uma conversação que resvalou para o que se anda a fazer na música portuguesa actual. Dia 29 de Fevereiro no Cinema São Jorge, podem ouvir os autores de Chromatic, com a bateria siamesa dos Paus.
 
Don´t Panic - Como foi receber a notícia de que iriam actuar no festival de música, South By Southwest (SXSW)?
Charlie Brown - Fizemos a inscrição no festival e, sinceramente, não estávamos à espera de ser escolhidos. Quando soubemos da notícia ficámos muito contentes… não estávamos minimamente à espera! Concorremos na desportiva, a ver se dava alguma coisa, e, de repente, fomos um dos seleccionados. Genial! Logo a seguir, percebemos que seria uma aventura algo dispendiosa, já que vai sair tudo do nosso bolso…

DP - E é aí que surge a ideia dos apoios para a viagem aos Estados Unidos?
CB – Percebemos que precisávamos de dinheiro. Tão simples quanto isso. Nesse sentido, tentámos arranjar uma solução. É uma ajuda que pedimos, mas garantimos o retorno. Acaba por ser um “toma lá, dá cá”! Foi a forma que arranjámos para conseguir pagar a viagem e a estadia sem grandes esforços financeiros. De outra forma seria difícil.
 

DP – É quase paradoxal serem convidados para um dos maiores festivais de música do mundo e a vossa presença estar em causa por motivos de ordem financeira…
CB – É uma perspectiva, mas ninguém nos garante que bandas de outros países não estejam a passar pelo mesmo problema que nós. A música nunca foi a actividade que os pais sonharam para os seus filhos. Dá dinheiro, sim, mas apenas para alguns. Para a grande maioria é uma realidade que se trilha com algumas dificuldades. O próprio festival acaba por se aproveitar da sua reputação para chamar as bandas e não lhes pagar. Não digo isto no sentido negativo, mas é uma situação que todos ficam a ganhar: os artistas querem ir ao SXSW, são mais de mil bandas e não se pode pagar a toda a gente, até porque ainda existem os grandes nomes que compõem o cartaz.

DP – E a vossa iniciativa de angariação de fundos está a correr bem?
CB – Está a correr muito bem! Em apenas uma semana tivemos mais de cem pessoas a doarem alguma coisa. Superou as nossas melhores expectativas. Tendo em conta que ainda temos mais quatro semanas pela frente, só podemos estar confiantes. Como é óbvio, sabemos que esta euforia vai acalmar. Houve a notícia e as pessoas envolveram-se. Quando estivermos mais próximos do concerto deverá, novamente, haver um aumento da ajuda.
 

DP – Tocar no SXSW pode ser um momento de viragem para os Charlie Brown?
CB – Não seremos super-estrelas após o concerto, isso é certo! Pode estar lá alguém, com algum nome, e gostar daquilo que façamos em palco. É uma possibilidade, já que estamos a falar de um evento de grande envergadura. As oportunidades criam mais oportunidades e podemos ter essa sorte. Se correr bem, teremos mais nome, sem dúvida! Ir lá tocar já é uma enorme montra, pelo menos em Portugal.

DP - E que Charlie Brown teremos no SXSW?
CB – Será sempre um Charlie Brown explosivo, que é a nossa tónica em todos os concertos. Nunca pensamos muito nesse aspecto…para já, porque ensaiamos pouco (risos). Somos uma banda de seis amigos em cima do palco. Vamos entrar e começar a tocar as nossas músicas de forma natural. Sem grandes tácticas.

DP - Virando um pouco a agulha da conversa: nota-se uma certa pujança na música portuguesa nos dias que correm. Têm essa mesma percepção?
CB – Sem dúvida! Não só uma nova geração de pessoas que quer fazer música, como algumas editoras, mais pequenas, que ajudam as novas bandas a crescer neste meio. Há uns anos, não havia tantas editoras pequenas como agora. Hoje,
temos mais formas de fazer um disco. Não existem tantas diferenças entre fazer parte de uma “major” ou de uma editora mais pequena. Houve um conjunto de pessoas que “percebeu” que poderia fazer esse trabalho sem ter um grande estúdio. Mas, no fundo, existem muitas bandas portuguesas a fazerem um bom trabalho. Há uma identidade e já não soa tudo a Nirvana ou a Pearl Jam.

DP – Sean Riley, Orelha Negra, Paus, Diabo na Cruz, Samuel Úria…entre outros. Há, de facto, várias bandas que começam a cimentar a sua presença nos principais palcos portugueses. É um incremento de qualidade na indústria nacional, ou um grito de revolta desses mesmos artistas?
CB – É uma excelente fase da música portuguesa. Não sei se é um grito de revolta, mas tenho a certeza que se trata de uma geração de músicos muito talentosa, mais informada do que acontece em todos os cantos do mundo. Somos a geração da Internet e isso diz muito do que está agora a acontecer. Percebemos que conseguimos fazer música tão boa como aquela que as bandas que gostamos de ouvir fazem. Essa forma de pensar está a ter resultados no que observamos hoje na música portuguesa. Temos os melhores arquitectos do mundo, melhores jogadores de futebol, os melhores escritores…podemos também almejar alguma coisa nesta indústria.

DP – Por outro lado, também o público mais jovem começa a ouvir cada vez mais música portuguesa…o iPod já tem mais do que Rage Against the Machine, U2, Pearl Jam ou Soundgarden. Começam a surgir várias listas com bandas nacionais.
CB - Há cada vez mais um orgulho muito grande no nosso património musical. Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Amália, Carlos Paredes…começa-se a recuperar esses nomes e isso é muito importante. Dizem que o Fado está na moda, e ainda bem que está! É importante que esteja. Depois, com as bandas mais actuais, há ligação directa através das redes sociais e outros canais na Internet. As bandas interagem muito mais com as fãs e essa proximidade explica, em parte, este casamento que tem havido entre o público português e os músicos.

DP – Outro pormenor interessante é a união e cooperação entre a comunidade artística ligada à música portuguesa…
CB – Esse é um dos aspectos mais importantes para o aparecimento de todas estas bandas que enumeraste há pouco. Esse pormenor faz-nos sentir bastante felizes. Há uma união entre os músicos que é simplesmente bestial. Ajudamo-nos uns aos outros, fazemos colaborações, convites…vive-se um ambiente muito saudável. Não faria sentido de outra maneira. Somos pequenos e o mercado português também é pequeno.

DP – E planos para 2012? Novo álbum, compor, concertos, festivais…como irão ser os próximos 11 meses?
CB – Um pouco de tudo isso! Já começámos a compor algumas músicas para o novo álbum que irá sair…quando houver condições para tal. Queremos também continuar a dar alguns concertos. Resumindo, os objectivos, por agora, são estes.


DP – Os festivais de Verão em Portugal estão na vossa agenda?
CB – Esperemos que sim, não depende só de nós. Aliás, temos muito pouca influência nessa área. Temos tido alguns sonhos…um deles passa por tocar no mesmo dia e no mesmo palco que Radiohead (Festival Optimus Alive, a 15 de Julho). Talvez isso seja difícil, mas há lá outros palcos. Já dava para os encontrar na cantina ou algo do género…

DP – E, agora, o vosso grito Don´t Panic para o mundo?
CB – Don´t Panic: isto vai ao sítio!

Nota: Quem quiser fazer uma doação aos You Can´t Win, Charlie Brown, pode fazê-lo em www.ycwcb.com
 
 
 
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